Cinco estados, incluindo SP e RJ, ainda não separam dados de terceiras e quartas doses da vacina contra Covid

Três meses após o Ministério da Saúde recomendar a aplicação da quarta dose por critério de idade, cinco estados brasileiros ainda não divulgam de forma separada quantas terceiras doses e quantas quartas doses já foram aplicadas em seus postos de saúde.

Um levantamento feito pela produção da TV Globo mostra que não há divulgação pública diária do total detalhado de terceira e de quarta dose nos sites dos governos do Amapá, Maranhão, Rio de Janeiro, São Paulo e Tocantins (veja, no fim da reportagem, o que diz cada estado).

Até o mês passado, nove estados estavam nessa situação. Goiás deu início à divulgação separada em 2 de junho. Após demanda enviada pela TV Globo desde sábado (18), os governos do Pará e de Roraima atualizaram seus sites nesta segunda-feira (20) para incluir os totais separados de terceiras e quartas doses. O Acre concluiu a atualização do site no fim da tarde desta terça (21).

Veja, no mapa abaixo, quais são as coberturas vacinais de terceira e quarta dose:

Em São Paulo, a aplicação da quarta dose em idosos começou há três meses, em 21 de março. Mas, no sistema Vacivida, mantido pelo governo estadual, tanto as terceiras doses quanto as quartas são classificadas igualmente como dose “adicional”. Com isso, distinguir se uma dose foi a terceira ou a quarta, se houver acesso individual a outros detalhes, como a data de aplicação da dose ou o CPF da pessoa imunizada.

Por isso, o Vacinômetro paulista dispõe até hoje apenas de um número total de doses adicionais aplicadas – às 17h desta terça (21), o total já era de 31.575.787 dose – sem identificar quantas eram terceiras doses, e quantas eram referentes à quarta dose.

Até agora, a divulgação separada de dados era feita apenas sob demanda, após um levantamento específico feito pelos técnicos da Secretaria Estadual da Saúde. O último balanço ao qual a TV Globo teve acesso foi divulgado em 7 de junho. Naquele dia, de um total de 29,3 milhões de doses adicionais aplicadas, 24,9 milhões (85%) eram terceiras doses, e 4,4 milhões (15%) foram aplicadas como quarta dose na população.

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Vacinação infantil contra a Covid-19 em Franca (SP) — Foto: Reprodução/EPTV

Vacinação infantil contra a Covid-19 em Franca (SP) — Foto: Reprodução/EPTV

Sistema próprio de registro

O processamento dos dados de vacinação e a manutenção do sistema de notificação de doses paulista, o Vacivida, é de responsabilidade da Prodesp, a empresa de processamento de dados do governo estadual. Em nota, a empresa paulista afirmou que segue diretrizes definida pela própria Secretaria Estadual da Saúde (SES-SP).

“O sistema Vacivida foi desenvolvido pela Prodesp para atender as necessidades da Secretaria Estadual da Saúde (SES) na gestão da pandemia de Covid-19 em São Paulo”, afirmou a empresa. “A apresentação da divisão de doses no Vacinômetro segue diretrizes estabelecidas pela Secretaria e até o final de junho será atualizada para apresentar separação das doses adicionais, tanto das mais de 31 milhões já registradas no sistema até o momento, quanto para as futuras aplicações.”

Ainda segundo a Prodesp, “vale reforçar que por se tratar de um projeto em constante evolução, atualizações podem ser necessárias e a Prodesp está preparada para atender as necessidades do momento”.

Procurada na semana passada sobre quando a divulgação seria atualizada, a SES-SP afirmou apenas que “vem aprimorando seus sistemas de informações para ampliar a divulgação no site oficial dos dados com relação à imunização”. Na tarde desta segunda (20), o secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, confirmou em entrevista ao SP2 que o processo seria concluído até o fim de junho.

“É exatamente isso que a própria Secretaria de Estado da Saúde quer saber, quais foram as terceiras doses e quais as quartas doses. Por isso nós já estamos há várias semanas trabalhando com a Prodesp, que é a empresa de processamento de dados do Estado, e até o final desse mês nós teremos essa diferenciação que será colocada no site do Vacine Já”, afirmou ele.

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Campanha ‘Dia D’ de vacinação contra a Covid-19 em Campinas (SP), em janeiro de 2022 — Foto: Carlos Bassan

Campanha ‘Dia D’ de vacinação contra a Covid-19 em Campinas (SP), em janeiro de 2022 — Foto: Carlos Bassan

Além de manter um sistema próprio de vacinação, o governo de São Paulo também dispõe de um órgão próprio de gestão de dados e informações. Batizado de Central de Dados do Estado de São Paulo (CDESP), o órgão conta com um Comitê Gestor e tem como objetivo “aperfeiçoar a gestão de dados e informações necessários à formulação, implementação e avaliação de políticas públicas do Estado de São Paulo”.

A TV Globo questionou a CDESP sobre o papel dela no aperfeiçoamento da divulgação dos dados de vacinação contra a Covid-19, incluindo a quantidade de reuniões e documentos produzidos sobre o tema.

Em nota enviada nesta terça-feira, o órgão não informou em quantas reuniões abordou o assunto dos dados de vacinação, disse que “acompanha a gestão dos dados do combate à COVID-19, junto com o SIMI (Sistema de Informações e Monitoramento Inteligente) e de acordo com as normas do PEI (Plano Estadual de Imunização), em especial no mapeamento de dados e informações gerados ou coletados por órgãos e entidades integrantes do sistema vacinal”, e que “atos normativos que tratam das ações de enfrentamento à pandemia foram realizados pelos órgãos responsáveis pela política assistencial em saúde”.

A CDESP afirmou, ainda, que “cabe ao Comitê Gestor, respeitadas as competências estabelecidas em sua instituição, atuar de forma harmônica com os demais órgãos e entidades integrantes do Governo de São Paulo”.

Eficácia da campanha de vacinação

“É natural que todos nós, seja o estado e os próprios municípios, tenhamos grande interesse em ter essa divisão, essa informação de terceira e quarta dose”, continuou o secretário.

Wanderson Oliveira, epidemiologista especialista em gestão de emergências em saúde pública, e que atuou como secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde até maio de 2020, concorda com a importância da divulgação detalhada dos dados para os gestores públicos.

“A dificuldade é nós dimensionarmos melhor a cobertura e a proteção local. Porque, na medida em que nós estamos já em alguns locais trabalhando com a segunda dose de reforço, e essa é quase que uma segunda campanha de vacinação no ano de 2022, a gente precisa atualizar essa percepção. A comunicação fica comprometida com a falha nos números”, explicou ele ao SP2.

“E à medida que você tem alguns estados fazendo corretamente, outros que ainda não atualizaram, você compromete a análise global da cobertura vacinal no país.” (Wanderson Oliveira, epidemiologista)

Segundo ele, apesar de o problema não afetar individualmente o comprovante de vacinação de cada pessoa imunizada, e apesar de a falta de detalhes não indicar que as doses não estejam sendo aplicadas, não divulgar os números corretamente pode comprometer a percepção que a população tem sobre o risco atual da pandemia.

Oliveira explica que os estudos já mostram que a população, especialmente com mais de 60 anos, perde a imunidade pela vacina ao longo do tempo, “de uma maneira que influencia as estruturas da saúde pública no local”, já que pode levar a um aumento nas internações e sobrecarga do sistema hospitalar.

“À medida que a população não perceba que ela está em maior risco, acaba tendo uma visão muito equivocada praquele grupo”, afirmou ele.

Comprometimento à credibilidade da política

Para Fernanda Campagnucci, diretora-executiva da Open Knowledge Brasil, a demora para atualização das divulgações é reflexo da “falta de liderança do Ministério da Saúde para determinar a padronização e os parâmetros de qualidade de dados que devem ser divulgados por estados e municípios”.

De acordo com ela, “desde o início, dependemos da pressão da sociedade, especialmente de instituições de pesquisa e da imprensa, para que haja a divulgação de informações básicas para o acompanhamento da disseminação da doença e do programa de imunização”.

Ainda segundo Campagnucci, uma política pública de imunização transparente não deve apenas cumprir a função de aplicar a dose na população e divulgar um balanço geral.

“Para ser considerado transparente, não basta que o estado divulgue informações gerais e consolidadas. O detalhamento é fundamental não apenas para que os dados possam ser auditados e tenham mais credibilidade, como também para que diferentes públicos consigam reutilizar os dados e gerar conhecimento a partir deles.”

Veja o que dizem os cinco estados que ainda não divulgam os dados detalhados de terceiras e quartas doses:

  • AMAPÁ: Via WhatsApp, a assessora de imprensa da Secretaria Estadual da Saúde do Amapá informou que está verificando a atualização do painel onde as informações estão disponíveis e que deve concluir a divulgação separada dos dados nesta quarta-feira (22).
  • MARANHÃO: Em nota enviada por e-mail, a Secretaria Estadual da Saúde do Maranhão afirmou que começou a aplicar a quarta dose em 26 de abril e que, “após finalizada a fase de orientação e capacitação dos 217 municípios para o preenchimento correto dos dados no Painel [Estadual de Vacinação], a divulgação será realizada no mesmo endereço eletrônico, que neste momento está em fase de atualização”.
  • RIO DE JANEIRO: A Secretaria Estadual da Saúde do Rio de Janeiro informou, em nota, que encaminhou aos municípios em 24 de março a orientação para o início da aplicação da quarta dose na população, pelo critério de idade. A pasta não informou um prazo pra atualizar a divulgação, em seus sites, do total separado de terceiras e quartas doses.
  • SÃO PAULO: Em São Paulo, a vacinação da quarta dose por critério de idade começou em 21 de março. Nesta segunda-feira (20), o secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, afirmou à TV Globo que a atualização dos sites para detalhar os dados de terceira e quarta dose deve ser concluída até o fim de junho. A Prodesp confirmou o prazo em nota à TV Globo.
  • TOCANTINS: A Secretaria Estadual da Saúde do Tocantins informou, por e-mail e por telefone, que a aplicação da quarta dose começou no início de junho, e que a pasta já solicitou a atualização do site para mostrar o balanço detalhado das terceiras e quartas doses.

Conteúdo original publicado por g1.globo