Jove e Juma vão transar pela 1ª vez e escolhem lugar incomum; entenda e tire dúvidas sobre o início da vida sexual

Um banho de rio será o cenário do que vai ser também o início da vida sexual da personagem interpretada por Alanis. Mas o sexo dentro do rio, sobretudo em uma primeira vez, pode ser considerado seguro e adequado?

Na visão de especialistas ouvidos pelo g1, o ambiente pode adicionar dificuldades para casais iniciantes (e até mesmo mais experientes) e trazer alguns riscos, mas que podem ser eventualmente superados se o local for capaz de oferecer privacidade e o sexo for vivido pelo casal de forma consciente, claro.

Abaixo, em tópicos, veja um tira dúvidas sobre questões que envolvem a primeira vez:

  1. Quais os riscos da primeira vez em um ambiente natural, fora de um quarto? Existe um lugar certo?
  2. Quando um casal sabe que está preparado?
  3. Como a pornografia e o imaginário ficcional podem influenciar as expectativas de quem vai ter sua primeira transa?
  4. O que muda nos preparativos quando o casal é formado por gays, lésbicas ou outras pessoas da comunidade LGBTQI+?
  5. O que um jovem já deve ter aprendido com pais, escolas e comunidade antes de iniciar a vida sexual? E qual a idade certa para isso?
  6. ‘Me sinto pronto e preparado para a primeira vez’: horas antes da transa, o que eu preciso saber?

1 – Quais os riscos da primeira vez em um ambiente natural, fora de um quarto?

Antes de tudo, é preciso esclarecer o seguinte: segundo o Código Penal Brasileiro, relações sexuais em locais públicos podem ser enquadradas como um ato obsceno.

Como mostrou o g1 Mato Grosso do Sul após um vídeo de um casal fazendo sexo em uma praça ter repercutido nas redes, relações sexuais na rua ou em locais públicos podem levar os envolvidos a responderem a um processo penal.

Apesar disso, mesmo que o espaço natural seja privado, como um riacho ou lago dentro de uma propriedade, o ambiente pode oferecer riscos para o casal aventureiro.

“Até pela própria história da humanidade a gente sabe que esses ambientes rústicos foram enfrentados por milhões de seres humanos. Toda a reprodução humana, até certo porto, aconteceu dessa maneira. No entanto, é importante saber o grau de contaminação da água, além de ter uma higiene adequada depois”, esclarece a ginecologista e doutora pela USP, Flávia Fairbanks.

No caso de um local aquático em específico, como muitas vezes é difícil mensurar com precisão esse grau de contaminação, é importante saber pelo menos se esse ambiente recebe despojos do sistema de esgoto, visto que, independentemente da atividade realizada, um simples mergulho nesses locais contaminados pode resultar nas chamadas “doenças de veiculação hídrica”, enfermidades cujo o principal veículo de transmissão é a água.

“Se o rio estiver contaminado não é pela relação sexual que eles [o casal] vão pegar a doença”, diz o infectologista Roberto Focaccia.

“Eles podem pegar ‘n’ doenças, como a hepatite A, micoses, leptospirose (não propriamente na água, mas se estiverem próximo à margem), se ingerirem água contaminada podem ter uma gastroenterite, salmonelose, parasitose, etc. Mas nada relacionado ao ato sexual, mas sim ao simples fato do casal estar na água”, pontua.

Além disso, Fairbanks explica que infecções de pele e de mucosas também podem ocorrer. “Fora isso, não tem nada de diferente de rolar num rio ou numa banheira, que poderia estar até mais contaminada do que o ambiente natural”, afirma.

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Cena clássica do filme ‘A Um Passo da Eternidade’ mostra casal interpretado por Burt Lancaster e Deborah Kerr se beijando no mar. — Foto: Domínio Público/Wikimedia

Cena clássica do filme ‘A Um Passo da Eternidade’ mostra casal interpretado por Burt Lancaster e Deborah Kerr se beijando no mar. — Foto: Domínio Público/Wikimedia

Já a ginecologista e sexóloga Carolina Ambrogini lembra que a água prejudica a lubrificação natural do corpo, tornando essa primeira experiência sexual em algo mais doloroso.

“Fica muito bonito na televisão, mas eu não aconselharia”, diz, aos risos.

“Lubrificantes são importantes para qualquer tipo de ato com penetração numa primeira vez”, alerta também Carmita Abdo, presidente da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual.

“É muito raro essa lubrificação acontecer de forma adequada, porque a pessoa está ansiosa, ela está na expectativa e isso inibe as secreções do corpo de serem produzidas e de irem até os genitais, favorecendo então um sexo mais confortável.”

Existe um lugar certo para a primeira experiência sexual?

Abdo detalha ainda outra questão: a privacidade. Ela diz que não existe um lugar ideal, o local precisa ser um ambiente em que as pessoas que estão iniciando sua vida sexual se sintam tranquilas, para poderem assim focar sua atenção no ato em si e não em outras preocupações, como possíveis “flagras.”

“Resumindo: o melhor lugar é aquele que você escolheu e se sente bem. Suficientemente relaxado para uma atividade que você está iniciando”, salienta.

Desse modo, para quem ainda assim pretende encarar esses lugares mais inusitados, fora de um quarto e uma cama confortável, a especialista em sexualidade humana Lilian Fiorelli, dá uma dica: leve uma toalha (para forrar o piso) e, ao término, faça uma higiene adequada.

“Importante dizer que as mulheres não devem lavar a vagina por dentro (ducha vaginal), porque esse é um órgão que tem sua proteção natural. Se, eventualmente, depois vier corrimento ou cheiro ruim, busque o medico para avaliar.”

2 – Quando um casal sabe que está preparado?

Apesar da grande romantização desse momento, diversos jovens vivem a iniciação mais por curiosidade do que por idealização amorosa.

Flávia destaca que um ótimo termômetro acerca do comportamento do adolescente é o círculo social no qual está inserido, exercendo grande influência quanto à idade dessa iniciação.

“Um círculo mais liberal pressupõe uma exposição sexual mais precoce, já um moralmente mais rígido aponta para uma vivência tardia da sexualidade.”

Independentemente disso, pensando em termos individuais, a ginecologista diz que um indicativo de que chegou o momento de dar esse passo é a capacidade de enfrentar a decisão com maturidade, arcando com as consequências dos atos e, acima de tudo, sem sentir medo.

Já Ambrogini defende a importância tanto do autoconhecimento da sexualidade como do corpo. Ela explica que antes de qualquer um dividir esse momento especial com uma outra pessoa, é preciso adquirir uma certa intimidade com o seu próprio corpo e conhecer seus prazeres e aquilo que lhe satisfaz sexualmente.

“A primeira coisa é se tocar, se masturbar, se conhecer. Entendes quais são as suas fantasias sexuais”, ressalta.

Além da masturbação e do autoconhecimento, é importante também ir em fases, começar primeiro com as mãos e com as preliminares. Ambrogini diz que isso vai construindo a intimidade, antes de uma relação sexual completa. E se o casal já tem o conhecimento prévio de como seus corpos funcionam, a transa vai ficando mais natural.

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Antes da primeira vez, é importante se masturbar, entender como seu corpo funciona e quais são seus prazeres. — Foto: Pexels

Antes da primeira vez, é importante se masturbar, entender como seu corpo funciona e quais são seus prazeres. — Foto: Pexels

“Precisa de bastante excitação. O corpo tem que pedir pela relação. Então tem que ter bastante preliminar, uma relação carinhosa. Isso ajuda as pessoas a irem relaxando e não ficarem tensas. Entenderem que se não der certo da primeira vez, tudo bem, a gente tenta de novo. ‘Tá sentindo dor? Vou parar'”, aconselha a sexóloga.

Fairbanks acrescenta que o canal vaginal fica mais exposto pela ruptura do hímen, uma membrana com uma certa sensibilidade e que pode ser mais ou menos vascularizada.

Por isso, o grau de segurança e do entretenimento com as preliminares leva a um maior resposta do corpo, com lubrificação e sem ansiedade, tornando a primeira vez um processo mais tranquilo pelo preparo natural do organismo.

3 – Como a pornografia e a ficção podem influenciar as expectativas de quem vai ter sua primeira transa?

Carmita Abdo, que também é psiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), explica que qualquer relação, incluindo aquela da primeira vez, não pode representar mais uma situação de risco do que de prazer.

Isso acontece, detalha a especialista, tanto quando a proteção não existe (no sentido da transmissão das Infecções Sexualmente Transmissíveis, as IST’s, e de uma possível gravidez indesejada), como quando a pessoa é impulsionada, mesmo que indiretamente, a iniciar sua vida sexual.

“Não pode ser uma atitude de grupo. Precisa ser uma atitude com uma deliberação pessoal. Eu quero e eu vou buscar porque eu estou necessitando ter essa iniciação”, exemplifica.

Dessa forma, Abdo diz que muitos jovens se sentem pressionados a terem sua primeira transa quando eles são a única pessoa do seu círculo de amigos próximos que ainda não teve essa experiência. Mas esse sentimento, ressalta a médica, é prejudicial a uma primeira relação prazerosa.

“Você precisa sentir a sua necessidade como real e legítima e aí sim iniciar sua vida sexual.”

A ginecologista Carolina Ambrogini também concorda com a colega e acrescenta que filmes pornográficos e outras obras de ficção muitas vezes passam a noção errada de uma relação sexual “perfeita e ideal”; tentar copiar isso, diz ela, como acontece em vários casos, pode ser algo frustrante para quem nunca teve uma experiência prática.

“Achar que o sexo é aquela performance toda pode gerar até ansiedade”, diz.

Abdo lembra ainda que ninguém nunca começa com a mesma habilidade que acaba tendo depois de outras experiências e que é preciso ter a consciência disso.

“Eu não tenho o desempenho que eu vejo nos vídeos ou filmes que eu assisto, nas leituras que eu faço porque que eu estou começando e vou ter que aprender fazendo, por mais que tenha visto, presenciado, assistindo e lido sobre o assunto”.

Já em relação aos limites, Abdo conta que é preciso entendermos que algo combinado antes da primeira transa, pode mudar na hora do ato sexual, e tudo bem. Assim, se durante a relação a pessoa perceber que está fazendo algo desconfortável, ela deve então comunicar ao seu parceiro ou parceira para que o sexo seja de fato consensual e aprazível.

Às vezes, continua a especialista, a pessoa chega até ao ponto de se agredir porque ela se sente na posição de performar algo que o outro talvez nem esperasse ou nem solicitou. Por isso que a comunicação é uma chave importante.

4 – O que muda nos preparativos quando o casal é formado por gays, lésbicas ou outras pessoas da comunidade LGBTQI+?

Nos casos de pessoas de diferentes orientações sexuais, como homens gays, mulheres lésbicas, bi, etc., as especialistas ouvidas pelo g1 ressaltam que a pressão sentida vem em dobro.

“Muitas vezes é um momento de se assumir ou assumir para os outros sua identidade e é preciso ter uma confiança pessoal muito grande. No entanto, seus desejos pessoais nem sempre coincidem com o momento ideal de ter essa conversa no núcleo familiar, então é preciso buscar alguém que te dê esse apoio para que a atividade sexual seja exercida com a maior segurança e tranquilidade possível”, aponta a ginecologista e doutora pela USP Flávia Fairbanks.

Abdo acrescenta que hoje em dia o campo da sexualidade tem profissionais mais capacitados e preparados para discutir esses assuntos e que, além disso, atualmente os jovens também podem buscar ajuda pela internet, em sites desses especialistas ou em veículos de comunicação confiáveis.

Outro questão significativa, destaca, é que as pessoas LGBTQIA+ que estão iniciando a sua vida sexual também precisam ter em mente que as infecções não se transmitem apenas pelo contato com a secreções genitais.

“Elas podem ocorrer também pelo contato anal. Por isso isso tem que acontecer com o devido cuidado. E se o jovem não tem uma lubrificação natural em determinadas regiões do corpo, ele também deve utilizar lubrificante”, detalha.

“E usar camisinha do começo ao fim. E saber colocar de antemão”, lembra Fiorelli.

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Informação de qualidade é essencial independente da orientação sexual. — Foto: Reprodução/Pexels

Informação de qualidade é essencial independente da orientação sexual. — Foto: Reprodução/Pexels

5 – Juma não teve uma educação sexual com a mãe; é apenas da família a tarefa de preparar os jovens para o sexo? E qual a idade certa para isso?

Fiorelli defende que a educação sexual acontece em um tripé, composto por família, meio social e profissionais da saúde. Mesmo quando o assunto é tabu no ambiente familiar, a falta de diálogo também imprime uma opinião na cabeça do jovem.

“O vínculo em família deveria ter sido criado desde a infância, não dá para esperar que vá ser criado a partir desse momento. É preciso se mostrar aberto aos questionamentos dos filhos desde pequenos”, afirma a ginecologista.

Já Fairbanks aponta que o círculo social influencia muito quanto à “idade ideal” dessa iniciação; um círculo mais liberal pressupõe uma exposição sexual mais precoce, um moralmente mais rígido pressupõe um tardio.

“Uma grande parcela vai por curiosidade, simplesmente para saber o que acontece, o romance sai de cena” conta ela.

A especialista conta que essa ausência do preparo adequado pode ocasionar um trauma psicológico ou até uma disfunção sexual, que pode levar a consequências negativas a longo prazo. “Duas coisas que precisam ser evitadas a qualquer custo”.

“Ao mesmo tempo, há adultos jovens despreparados por imaturidade nesse quesito sexual. É uma questão muito individual sobre como a pessoa lida consigo mesma e com essa área da vida, pois é um ato que impõe uma responsabilidade muito grande”, revela.

Série do Bem Estar tira dúvidas sobre sexo.

Fiorelli também defende que a questão da idade do adolescente é discutível, pois mais do que estar preparado, é preciso estar orientado. “Você sabe o que está fazendo? Tomou precauções? Está infringindo suas regras morais ou religiosas, o que pode te trazer um trauma depois?”, questiona.

Outro ponto importante, realça a ginecologista e sexóloga Carolina Ambrogini, é que a educação sexual precisa começar desde a infância. Ela lembra que de modo geral, ainda temos poucas políticas públicas de educação e que por isso o papel de pais e responsáveis é fundamental.

“Desde a infância precisamos dessas informações, elas vão sendo construídas pela família em doses homeopáticas, de forma com que a sexualidade seja encarada como uma coisa normal da vida, como uma etapa boa, não algo ruim, que vai só engravidar e pegar doença”.

Apesar disso, em casos onde não foi possível criar esse vínculo em família, se mostrando aberto aos questionamentos, é importante buscar ajuda profissional.

“É legal buscar o acompanhamento do profissional que a pessoa ache mais adequado. Seja um cardiologista, psiquiatra, psicólogo, alguém que seja mais maduro que um amigo e que dê confiança”, diz Fiorelli.

6 – ‘Me sinto pronto e preparado para a primeira vez’: horas antes da transa, o que eu preciso saber?

Tente relaxar ao máximo e evite bebidas alcoólicas, pois o álcool pode impedir a capacidade do corpo produzir ou manter uma ereção suficiente para uma relação sexual.

Fiorelli explica que apesar da bebida provocar uma sensação de excitação momentaneamente, ela tem efeito depressivo e piora a lubrificação.

“E não precisa ser a pessoa mais especial do mundo, mas é preciso um mínimo de confiança”, sugere.

Outra dica, diz Fairbanks, é fazer um checklist mental: entender qual meu papel e como desfrutar ao máximo essa experiência sabendo que quanto mais seguro entre os parceiros, vai ser melhor. Por fim, Abdo também lembra que é preciso deixar a frustação de lado e não alimentar falsas esperanças.

“Vamos trabalhar sempre com a ideia de que você tá tendo aquele ato que não tem compromisso de ter uma sequência. E se tiver é porque vocês dois chegaram a uma conclusão de que valeu a pena e querem repetir”, afirma.

Conteúdo original publicado por g1.globo